Urbanização e verticalização em São Paulo
Não é nenhuma novidade o intenso processo de urbanização que a maior cidade da América do Sul tem sofrido nas últimas décadas. São Paulo passou de cidade comercial para metrópole industrial. Hoje já não se trata mais de um pólo industrial, mas sim de uma metrópole informacional (Santos apud Arroyo, 2004, p. 86). Não à toa, é reconhecida como metrópole global. Significa que sua importância não se restringe mais apenas ao território nacional, mas seu potencial de comando está voltado agora para o mundo. É como se São Paulo fosse a porta de entrada para o país.
Neste contexto, não é de se estranhar que esta metrópole continue a crescer em ritmos desenfreados. A cada dia, novos condomínios vão sendo construídos, prédios levantados, o trânsito se torna mais caótico e inviável.
A vista de arranha-céus da minha janela é só mais uma nesta cidade:
São Paulo, SP. Vista para Av. Paulista. Novembro, 2007.
Fica até difícil imaginar a forma do relevo, com tantos prédios de diferentes tamanhos encobrindo o geomorfologia da cidade.
A imagem de satélite da região metropolitana de São Paulo chega a ser assustadora. A mancha cinza é extensa e muito homogênea. Parece não haver espaço para mais nada. E na realidade, é quase isso que acontece.
Região Metropolitana de São Paulo. Fonte: Google Maps.
Em frente à minha casa, em meio a um prédio residencial mais antigo e a um prédio comercial, havia um sobrado ao lado de um estacionamento particular. Num certo dia, já nos fins de 2007, o estacionamento foi desativado. Na mesma semana, começaram a demolir o sobrado. Em poucos dias a área estava vazia. Restavam apenas algumas árvores. Cinco, quatro, três, dois, um… estava óbvio, iriam construir um novo prédio.
São Paulo, SP. Área de demolição que dará espaço a um novo condomínio residencial. Setembro, 2007.
Na última sexta-feira (Abril de 2008), colocaram, finalmente, a placa: “Em breve, lançamento. Maiores informações aqui”. Durante todo o fim de semana, uma equipe de pessoas ficou ali plantada, sob um toldo branco, esperando os interessados. Mal posso esperar pelos novos vizinhos, pelo condomínio de um só prédio, no mais criativo estilo arquitetônico neo-clássico, com nome metido à besta, quiçá em francês, com uma enorme varanda e o “sarcófaco” 1×1 da empregada.
“No caso em questão há uma aliança de interesses entre o mercado imobiliário e o setor produtivo na construção do ‘novo espaço’. De um lado o setor imobiliário, para continuar se reproduzindo, necessita sempre de novas estratégias capazes de permitir sua reprodução, de outro o setor produtivo vê-se diante de novas necessidades quanto ao espaço construído, mas ambos necessitam de uma infra-estrutura moderna. A tendência de escassez do solo urbano entorno dos centros econômicos-financeiros da metrópole gera a necessidade de novas estratégias capazes de permitir a reprodução do capital, assegurada através da possibilidade para se contornar o problema do espaço urbano enquanto mercadoria tornada rara, em decorrência da intensificação do processo de urbanização e de mudanças no processo produtivo. A interferência do Estado mudando a legislação, permitindo transformações na lei de zoneamento, dirigindo o processo de desapropriação do solo urbano, criando mecanismos que permitam o remembramento de terrenos urbanos, aumentando o coeficiente edificável (o que permite a verticalização) vão criar mudanças significativas na metrópole.” (Carlos, 2001).
É assim que a cidade se constrói e se reconstrói. A necessidade de reprodução do espaço numa cidade saturada, como é São Paulo, assim como a busca pela expansão econômica, torna essencial a multiplicação de espaços: um sobrado para uma família dá lugar a um prédio inteiro, de 20 andares, para 80 famílias. Não se trata apenas de reprodução espacial, mas acima de tudo, de reprodução do capital. Basta imaginar quanto custou o terreno e quanto custará cada metro quadrado destes novos apartamentos.
- Bibliografia:
- Carlos, Ana Fani Alessandri. São Paulo Hoje: As Contradições no Processo de Reprodução do Espaço. In: Revista Scripta Nova, Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidade de Barcelona. Nº 88, 1 de Maio de 2001. Disponível em: http://www.ub.es/geocrit/sn-88.htm
- Arroyo, María Mónica. São Paulo e os fluxos internacionais de mercadorias: a espessura de uma região metropolitana. In: Ana Fani Alessandri Carlos; Ariovaldo Umbelino de Oliveira (Org.). Geografias de São Paulo: a metrópole do século XXI. 1 ed. São Paulo : Contexto, 2004, v. 2, p. 85-104.








Projeto CyberShark

Comentários (6 comentários)
O que eu tô curioso pra saber é quando vai começar a ter aquelas passarelas gigantes, tipo segundo andar de calçada, que nem naquelas ficções científicas francesas…
Badá / April 27th, 2008, 7:07 pm / #
Obrigada pela visita. Será um grande prazer recebê-la no blog. E mais fotos do Atacama serão postadas! Um abração, Ela
Ela / May 5th, 2008, 9:06 pm / #
São Paulo é a cidade que não deve ser exemplo para nenhuma outra, é um modelo de como estragar um sítio, com um volume de cheios muito maior que vazios. E custo alto de lote não deveria ser motivo para uma grande área construida. Agora, pergunto, como que os Planos Diretores não impediram este exagero ao longo destas décadas. A sombra é uma constante nos prédios vizinhos, o acúmulo de automóveis, a grande carga de esgoto, a poluição visual e do ar, são decorrentes de pressões e interesses mesquinhos de todos que participaram da aprovação destes índices de aproveitamento, ao longo do tempo. Onde está a inteligência paulista, a classe, a vanguarda que deixou esta feiura e burrice tomar conta?
gilberto albano jacobus / May 11th, 2008, 1:53 pm / #
Uma pergunta séria: São Paulo tem efetivamente um Plano Diretor?
rbp / May 12th, 2008, 1:32 am / #
Uma pergunta não muito séria: o que é um volume de vazios?
Badá / May 12th, 2008, 1:02 pm / #
[...] Gosto de fotografar das janelas, como já devem ter notado pela foto da lua e do pôr do sol. [...]
Das Haus Die Frau » Archives » São Paulo views / September 30th, 2008, 10:32 am / #
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