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Ecomoda muita gente

Há tempos que venho refletindo a este respeito e, hoje pela manhã, enquanto lia um trecho do livro “História Econômica do Brasil”, de Caio Prado Junior (São Paulo, editora Brasiliense, 1945), consegui esclarecer um pouco mais a tal consciência ecológica. Ao falar sobre a tardia descoberta do ouro no Brasil, Caio Prado diz que “ao contrário do que ocorrera no México e no Peru, os indígenas [do Brasil], de um nível cultural muito baixo, não tinham se interessado por eles [os metais preciosos]”.

Este pensamento ou justificativa não caberia mais nos dias de hoje. Mas estamos falando de um intelectual – historiador, geógrafo e escritor – que viveu durante quase todo o século passado (1907 – 1990) e partilhava de um certo preconceito comum da época.

Não à toa, na década de 60, os programas do repórter Amaral Neto, uma espécie de Globo Repórter com a visão do período, mostravam a natureza como algo a ser combatido. No famoso episódio “A pororoca” (1963), o repórter sobrevoava de helicóptero o encontro das águas do rio Amazonas com o oceano e dizia, diante de toda aquela turbulência e barulho ensurdecedor, como era violenta a natureza e como o homem tinha de dominar tais fenômenos.

Estamos falando das vésperas do golpe militar de 64, de um Brasil em busca de desenvolvimento a qualquer custo, de um momento em que falar em proteção a natureza, em florestas intocáveis, era sinal de atraso.

Hoje, o contexto é outro. Está na moda falar em ecologia, proteção ao meio-ambiente, pensamento consciente. Por um lado, é bom saber que algo está sendo feito a este respeito; por outro, é triste ver que empresas se aproveitam cada vez mais deste discurso para vender seus produtos “politicamente corretos”.

Estava comprando, ontem, um filtro de café no mercado quando vi que a Melitta me dava duas opções: o filtro tradicional e o filtro eco. Peguei a embalagem para vasculhar o que era o tal eco e a cor do filtro era diferente, mais escura, mais “natural”. O pacote nada dizia a não ser que parte do dinheiro daquele produto era revertido ao Projeto ECOAR. O produto custava uns vinte centavos mais caro do que o tradicional. Achei ridícula a proposta, porque é claramente para vender mais e se aproveitar deste discurso ecológico. Olhe que bonitinho, eu sou um consumidor consciente e vou comprar o filtro eco. Eu não acho que a Melitta não vá redirecionar o dinheiro para o Projeto, não é este o ponto. O fato é que eles colocam um filtro de cor que parece papel reciclado, mas não é, e escrevem “ECO” para fazer você acreditar que está sendo generoso com a natureza.

No site da empresa, as informações sobre o Filtro de Café Eco se limitam a dizer que é um produto “para quem se preocupa com a natureza! Filtros de Papel Melitta especialmente desenvolvidos em papel ecológico a partir da celulose natural, do jeito que a natureza criou”. E onde está a vantagem deste produto, afinal? O que significa papel ecológico? O que é celulose natural, aliás, o que é uma celulose não natural? Fiquei indignada ao ver que o produto se limitava ao discurso, apenas.

Vasculhando, encontrei em um blog uma informação mais concreta. Segundo o post, Marcas consagradas lançam versão “Eco”, o tal filtro, diferente dos demais, não passa pelo processo de branqueamento do papel, uma das etapas que mais gera poluentes, portanto, ele produz menos resíduos e tem aquela cor amarelada. Isto sim é uma informação importante e me faz querer consumir o filtro de café eco, e não aquela propaganda vazia, sem fundamento algum. Porque a Melitta não explica seu produto na embalagem?

Quando casei, pensei em fazer os convites em papel reciclado, mas o custo deste produto era muito superior e me vi obrigada a usar os tradicionais. Neste segundo semestre, a copiadora da universidade já está utilizando o papel reciclado como uma opção. Ele começa a se tornar viável pois a empresa que produz o papel branco é a mesma que produz, agora, o reciclado. Com a produção em larga escala, e não mais nas mãos dos pequenos, o preço do produto caiu. Ele ainda é mais caro, mas a diferença é pequena.

Nesta semana comprei também a versão reciclada do Post-it. Naquele mesmo blog, citado acima, descobri que este produto é resultado “da parceria entre a norte-americana 3M e a brasileira Suzano, fabricante do papel Reciclato. Além de o material ser totalmente reciclado, 25% é de origem pós-uso, ou seja, do papel coletado nas ruas. A Suzano faz parceria com uma cooperativa de catadores de papel que garante a matéria-prima, além de gerar renda para várias famílias e ainda contribuir com a Fundação Ecofuturo. O novo post-it reciclado é de cor bege, e a qualidade é igual à do tradicional, porém o, preço é 5% mais baixo.”

Me incomoda um pouco, ainda, ver que essas ações só começam a ganhar notoriedade no mercado quando passam a ser desenvolvidas pelas grandes empresas. Eu entendo o porquê disto acontecer só por estas vias, mas não me deixa feliz ou tranqüila. Por outro lado, existem ações de ONGs envolvidas e pessoas que, para bem ou para mal, estão pensando no bem da sociedade. Assim espero!

De qualquer modo, ser um consumidor consciente não significa sair por aí pagando mais caro em tudo quanto é produto “eco”, “orgânico”, “natural”. Isto não basta. É preciso adotar uma postura crítica e se perguntar “porque estão querendo que eu compre isso?”; “porque este é melhor do que aquele?” e tentar descobrir o que está por trás das propostas das empresas. Uma coisa é fato: nunca estaremos com a certeza e segurança absoluta de estarmos fazendo a coisa certa, mas ser mais racional na hora de consumir, já ajuda a eliminar as armadilhas do discurso propagandístico.

Comentários (7 comentários)

Sem dúvida, Daniduc. Eu só não quis entrar neste assunto no post na hora em que escrevi, porque é muito pano para manga. Mas a idéia é bem esta mesmo.

Ontem fiquei pensando sobre os produtos orgânicos, que nos mercados comuns aqui em São Paulo são ainda difíceis de encontrar e, quando encontrados, são em geral mais caros do que os normais. Isto é um fator que desincentiva a venda, entretanto, é natural que eles custem mais, na medida em que a demanda ainda não é grande e eles são produzidos sem a “ajuda” de defensivos ou hormônios que aumentam a produtividade. Ao contrário, o produtor corre o risco de ter perda da sua produção, de modo que precise compensar com preços elevados.
Somente quando mais pessoas passarem a consumir orgânicos, é que os grandes produtores dos normais passarão a produzir também, aumentando a concorrência, diminuindo a corrida pelo aumento de produtividade a qualquer custo* e, então, fazendo com que os preços dos orgânicos se equilibrem (possivelmente, para baixo).

É mais ou menos assim que a coisa funciona, portanto, foi bem o que o Daniduc concluiu, é uma pressão da sociedade que abre a possibilidade de mudar o perfil do mercado. Se mais pessoas pressionarem por produtos “ecologicamente corretos”, eles passarão a existir em maior número no mercado, como hoje em dia já tem. A problemática que eu levanto no post é, também, o cuidado que os consumidores devem ter para não cair na armadilha das propagandas ecológicas/saudáveis/orgânicas falsas.

* estou falando de produtores/empresas que usam hormônios para o frango ficar maior, para a vaca dar mais leite, para o tomate ficar mais vermelho e vistoso etc etc etc.

alickel / November 9th, 2007, 9:03 am / #

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