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Filme: Encontro com Milton Santos – O Mundo Global Visto do Lado de Cá

Este post tomou rumos que não eram exatamente os pretendidos. A idéia era falar um pouco apenas sobre o filme, entretanto, acabei por fazer uma discussão sobre o que é a Geografia. Primeiro pensei se deveria deixar tudo o que escrevi de lado e começar novamente, mas depois achei que essa publicação poderia ser interessante da forma como está.

Antes de mais nada, devo esclarecer que sou estudante de Geografia ainda de fralda – iniciei o curso em 2005 -, e acabei por cair nas mãos deste grande pensador bahiano. Foi mais um acaso do que uma escolha, propriamente dita.

No momento em que procurava definir a minha carreira, no período de vestibular, acabei por optar pela Geografia por conta da sua vasta atuação em diversas áreas. Idéia esta que foi se moldando ao longo desses três anos e hoje já tenho um posicionamento diferente sobre o tal “leque geográfico”.

Quando iniciei a graduação na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, fui exposta a intrigantes discussões na disciplina Organização do Espaço, na época lecionada pela Profa. Dra. Adriana Bernardes. Entender a formação das cidades, a dinâmica global contemporânea, a discussão filosófica sobre a natureza e tantos outros assuntos foram me levando a entender, pouco a pouco, o verdadeiro sentido do que é a Geografia. Atualmente, estudante na Universidade de São Paulo – USP, acabo por me identificar cada vez mais com as idéias e teorias de Milton Santos e de seus seguidores. Não se trata de um dogma ou religião. Não significa, tampouco, que abro mão da possibilidade de conhecer outras teorias e autores. Mas trata-se, sobretudo, de uma identificação do saber Geográfico em sua essência nesta linha de pensamento, do reconhecimento de um objeto de estudo que de fato existe e é absolutamente importante para o desenvolvimento da sociedade.

Foi absolutamente difícil iniciar este post, pois há tempos venho ensaiando organizar idéias e falar sobre o que de fato é a Geografia. Esta semana fui duas vezes ao cinema ver o filme Encontro com Milton Santos – O Mundo Global Visto do Lado de Cá e este documentário, de Silvio Tendler, me trouxe a necessidade de organizar e escrever sobre este emaranhado de idéias que pipocavam na minha cabeça nos últimos 12 meses.

Sobre o documentário, Rafael Neddermeyer escreve no Correio Brasiliense:

Com uma hora e meia de duração e o (pequeno) orçamento de R$ 800 mil, Encontro com Milton Santos nasceu do acaso. Mais precisamente no meio de um outro trabalho – um documentário sobre o geógrafo Josué de Castro, em 1995. “Era um projeto produzido pela família do Josué, no qual eu tinha que entrevistar várias pessoas. Entre elas, estava o professor Milton Santos, um dos nomes mais importantes da geografia naquele momento”, explica o diretor, que viajou até Paris para o primeiro encontro. “Ele foi de uma clareza, de uma lucidez assustadora sobre vários assuntos. Fiquei tão fascinado que combinei de fazermos algo juntos no futuro”, conta.

Atarefados com vários projetos, os dois acabariam adiando o novo encontro. Mas um imprevisto acelerou o processo. “Em 2000, fiquei sabendo que ele estava doente e de repente vi o cavalo encilhado passar na minha frente. Percebi que a chance era aquela, até porque ele era o intelectual que se destacava sobre o tema da globalização”, recorda Tendler, que marcou um novo contato cara a cara para janeiro do ano seguinte, na Universidade de São Paulo (USP). “Foi a última entrevista – ele morreria três meses depois – e a mais difícil da minha vida porque era um depoimento fantástico. O Milton sempre foi bastante formal, mas dessa vez ele apareceu completamente descontraído. Esqueceu a doença por algumas horas”, revela.

No meu ponto de vista, o filme de Tendler tem importância fundamental no sentido de trazer ao público a importância do saber Geográfico. Esta disciplina sofre da falta de identidade. Ninguém sabe ao certo o que o geógrafo faz. Geógrafo é sempre e unicamente professor. Não que isto seja negativo, parte da minha escolha pela Geografia surgiu da vontade de ensinar. Mas o fato é que poucos conhecem a outra faceta, a do geógrafo pesquisador, porque pouco se sabe sobre o objeto de estudo desta disciplina.

Nas escolas brasileiras, a geografia é uma disciplina que se divide em estudos sobre a Geografia Física – conhecimento de relevo, clima, biodiversidade etc. dos lugares – e sobre a Geografia Humana ou Geopolítica – que se baseia no entendimento dos conflitos mundiais, a questão das guerras, a nova ordem mundial e por aí vai. Tudo isso não deixa de ser Geografia, mas a forma tal qual é apresentada não traz a visão completa do que é um estudo geográfico. Trata-se de uma disciplina “decoreba” ou uma aula sobre meros “quadros políticos mundiais”. Este é um fator, aliás, que acaba por distanciar os alunos da disciplina geográfica, pois passa a impressão de que basta ler os jornais diariamente para se tornar um geógrafo de excelência.

O documentário não é uma explicação sobre a história do pensamento ou sobre a teoria e método da geografia. Longe disso, o filme aborda uma das mais importantes visões de Milton Santos: o entendimento da dinâmica (complexa) da sociedade no período atual, que o autor chamou de “período técnico científico e informacional”, buscando interpretar as características dessa nossa era, era da informação. Trata-se do período em que o uso da técnica (objeto palpável, como computadores, câmeras de vídeo e de fotografia, aparelhos de telefonia celular etc), o crescimento da ciência, sua busca por desenvolver essas técnicas e a circulação em larga escala e em grande velocidade da informação (objeto não paupável) fazem da sociedade o que ela é. Um dos fenômenos resultantes desses período é a tal globalização, o foco principal do filme.

O elemento geográfico neste assunto todo entra quando introduzimos na discussão o elemento espaço (o lugar). Isso é o que difere a Geografia de outras disciplinas. A sociologia, por exemplo, tem também a função de estudar a sociedade, entretanto, a geografia coloca a discussão da sociedade inserida no espaço. O homem vive em algum lugar e a Geografia busca estudar a sociedade (o homem) e sua relação com o espaço (o lugar).

Um estudo geográfico, deve, portanto, estar sempre inserido em um lugar. Se não for possível apontar em um mapa, não é geografia. Daí a importante do conhecimento cartográfico na disciplina. Entretanto, isto não basta, a geografia deve considerar também a distribuição, distância e densidade. Esses elementos devem ser buscados a fim de proporcionar um entendimento do território produzido pela sociedade. Por exemplo, para estudar a produção de cana de açúcar no Estado de São Paulo, é preciso saber onde se localiza a plantação, quão distante está do mercado consumidor, como é feita a distribuição do produto (rodovia, ferrovia etc) e qual a densidade dessa produção. Resumindo, um estudo geográfico deve conter:

  • localização
  • distância
  • distribuição
  • densidade

Esses elementos são fundamentais e a partir deles é possível extrapolar para uma explicação de como se dá a produção do espaço. Em outras palavras, como os lugares são criados pelas sociedades. Determinadas cidades no interior de São Paulo nasceram da usina canavieira que alí se estabeleceu e a organização dessas cidades se dá pela existência da usina – desde a população que alí vive até o tipo das casas, como as ruas estão dispostas na cidade, a economia e tantos outros fatores.

Voltando ao filme, acho importante o fato de que as pessoas fora da academia, do meio universitário, têm, finalmente, a oportunidade de conhecer melhor um geógrafo de excelência e entender um pouco da sua teoria. Sem contar o destaque na mídia do para que serve o conhecimento desta disciplina.

O estudo da globalização traz à tona questões fundamentais sobre a discussão das fronteiras abertas para o mercado e fechadas para a pessoas – xenofobia -, a supremacia das grandes empresas e a influência direta dessas grandes corporações na construção do espaço, espaço este que é desfrutado pelo povo, que tem pouco poder para optar pelo destino deste espaço e lugar. Os levantes culturais e a busca pela justiça social, a reforma agrária no Brasil, a questão da água enquanto bem público pertencente ao lugar e, portanto, ao homem e tantos outros assuntos…

É um filme denso, que nos coloca a refletir por horas e horas sobre uma série de assuntos. É, além de tudo, didático, visual e impactante, absolutamente recomendável a professores de maneira geral e a estudantes de ensino fundamental, médio e vestibulandos. Sem dúvida, um filme que estará nas minhas prateleiras para utilizar em discussões nas minhas futuras aulas.

“Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de um movimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não os países ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduo liberado partícipe das novas massas e não o homem acorrentado; o pensamento livre e não o discurso único. Os pobres não se entregam e descobrem a cada dia formas inéditas de trabalho e de luta; a semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento em atitudes de inconformidade e, talvez, rebeldia.” (Milton Santos em Por Uma Outra Globalização – Do Pensamento Único à Consciência Universal)

Fiz um breve apanhado de artigos e sites sobre Milton Santos para quem quiser explorar mais:

Este post teve como fontes os artigos citados acima e o livro “Por uma Geografia Nova”, de Milton Santos, editora Edusp, São Paulo, 2004.

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