Artigo

O Problema do Divórcio e a Adoção por Casais Gays

Chegando o dia das crianças, a filha de 9 anos pede para o pai a Barbie Divorciada. O pai, buscando satisfazer o desejo da caçula, vai ao shopping comprar a tal boneca. Encontra todas: Barbie Noiva, Barbie Hollywood, Barbie Verão, Barbie Mamãe… mas nada de encontrar a Barbie Divorciada. Cansado de procurar, ele resolve comprar a Barbie Hollywood e volta para casa com o presente. A pequena criança feliz abre o pacote e:

- Pai, eu não pedi a Babie Hollywood, eu disse que queria a Barbie Divorciada.

- Mas filha, elas são todas iguais. O que a Barbie Divorciada tem que as outras não tem?

- Ela já vem com o carro do Ken, a casa da praia Ken, o duplex do Ken, tudo!!!

* * *

Eu tenho uma bandeja de café da manhã Anos 50, da Tok&Stok. Ganhei de casamento! O fundo dela é feito com desenhos, imagens, notícias e outros destaques da época. Uma das reportagens recebe o título “O problema do divórcio”:

“Voltou a constituir assunto dos mais veementes no Brasil a questão do divórcio. Não somente o Parlamento tem sido palco dos mais árduos debates. A imprensa e o próprio povo têm participado das discussões, que no fim de contas é do interesse imediato da sociedade. Tomando partido nos debates, com seus pontos de vista, a escritora Làzinha Luis Carlos de Caldas Brito pôs num românce ‘Órfãos de Pais Vivos’, da Editôra O CRUZEIRO, os dramas de uma família e o que poderá acontecer ao futuro dos filhos.”

Não vou me basear na informação de uma bandeja de café da Tok&Stok para deduzir sobre o pensamento daquela época. Até porque, pesquisei online e encontrei sim um site com as reportagens da revista O Cruzeiro (não da editora) e uma delas era a “Órfãos de Pais Vivos”. Mas não falava nada de problemas de divórcio, e sim de crianças que viviam em orfanatos porque seus pais eram doentes. Ou seja, não é a mesma reportagem da bandeja. Por outro lado, existiu de fato uma Editora O Cruzeiro, então, é capaz que o romance da Làzinha tenha existido também, mas o que quero esclarecer é que não tenho esta informação concreta.

Sem mais delongas, é interessante notar como a sociedade tratou a questão da separação há algumas décadas e, por vezes, um pensamento retrógrado ainda faz parte do nosso dia-a-dia em pleno 2000.

Filha de pais divorciados, eu lembro até hoje da dificuldade que foi para minha mãe assumir que era hora de ignorar os preconceitos da sociedade e pedir o divórcio. Ser mãe solteira não é tarefa fácil, ainda mais numa época em que as pessoas ainda “olhavam torto”. Foi difícil, entre outras coisas, convencer minha avó – mãe de minha mãe – que o casal havia se separado. Era inconcebível para ela ter uma filha mãe-solteira. Era coisa de vadia, mulher devassa.

Conheço casais separados de todos os tipos: dos que não se falaram nunca mais; dos que são amigos, almoçam de vez em quando e viajam juntos com os filhos; daqueles que separaram e casaram outra vez com outra pessoa; dos que tiveram separação traumática envolvendo traição; dos que apenas resolveram que não se gostavam mais…

Não vou dizer que é um processo natural. Ninguém casa já pensando na separação. Pelo menos é o que eu acho – vai saber! Mas eu lembro do dia em que papai saiu de casa. Eu era uma pipoca de 7 anos, chorei à beça e senti um vazio. Eu sabia, entretanto, porque aquilo estava acontecendo. Fui questionada antes e apoiei a separação. Nunca me arrependi e acho que foi justo. Sinto por meus pais não se falarem até hoje. Admiro quando vejo casais maduros que convivem socialmente e são bons amigos apesar da separação. Casos raros, admiráveis.

Mas eu não acho que o divórcio mereça o questionamento da reportagem da bandeja: “o que poderá acontecer ao futuro dos filhos?”. Acho sim que pode ser traumático para as crianças, mas isso porque as pessoas não sabem lidar com esse tipo de situação. Ficar colocando a separação como algo “fora do comum” e “anormal”, faz com que os filhos, principalmente quando pequenos, sintam tudo mais dificultoso.

É muito mais problemático e difícil para as crianças conviver em uma casa com pais que já não se amam, com um clima pesado de instabilidade, falta de confiança e respeito entre o casal etc. Um ambiente assim não tem condições de proporcionar bases educacionais favoráveis para o desenvolvimento de um indivíduo. Quer dizer, no que as crianças irão se espelhar para o futuro? Em pais que não se falam dentro da própria casa ou que tem relacionamentos paralelos além do casamento?

Já vi casais dizendo que estavam a ponto de se separar, mas decidiram ficar juntos pelo bem das crianças. Anos se passaram e a vida dentro de casa é infernal. Acabou-se o amor, acabou-se o respeito. Será mesmo este o “bem” das crianças?

Atualmente, a sociedade vive ainda um outro dilema: aceitar ou não a adoção de crianças por casais gays.

Recentemente, em novembro do ano passado (2006), um casal masculino de homossexuais conseguiu a adoção de uma menina que sofria maus-tratos da mãe biológica e foi abandonada em um orfanato. Outras adoções deste tipo já haviam acontecido no Brasil, mas a novidade deste caso está no fato de o registro da menina conter o nome dos dois, identificados oficialmente como pais. Normalmente, apenas um do casal fica com a guarda oficial da criança.

Este novo caso mostra que estamos caminhando para uma conscientização moral e uma nova possibilidade de família, mais justa.

É vendo estes casos que eu acredito num mundo melhor e mais feliz :-)

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