Pépi
Tudo começou há mais ou menos um mês, mais precisamente na semana de natal, e, para mim, na semana do meu aniversário (26/12). Sim, foi nessa semana cheia de comemorações que ganhei do Destino um presente. Lembro-me de que chovia muito e, um velho ditado já diz que “sempre depois de uma boa chuva vem um belo sol”, meu sol chegou antes e veio durante a chuva, meu sol de quatro patas, pêlo macio, orelhas fofinhas e molhadas, miando como quem quer achar a mãe naquela tempestade. Eu o acolhi, um gatinho siamês de 2 meses, bravo e desajeitado que tinha o hábito de andar de lado, o que dava muitos motivos para ser caçoado. Eu o chamei de Pépi (confesso que pensei em chamá-lo de Frederico, mas por experiências anteriores que já compartilhei com vocês, achei melhor não). Então Pépi ficou em casa. Lógico que tive de insistir muito com meu pai que ODEIA gatos, mas ele se rendeu aos meus apelos. Pépi conquistou um a um na minha casa, e logo no natal, quando a família se reuniu, ele pôde conhecer todos, até alguns vizinhos ele teve o privilégio de conhecer. Eu o apresentei aos cachorros, que, tenho de admitir, não ficaram muito felizes com sua permanência na casa. Minha golden foi a que melhor o aceitou.
Pépi não era um gato manso, quando não gostava de algo tratava de me dizer (do seu jeito, é claro), e admito que levei algumas mordidas até aprender a falar seu “idioma”. Eu havia ganhado um amigo, alguém com quem passar as férias, alguém para cuidar, alguém com quem passei cada hora do meu dia (e da minha noite). Tínhamos muitas coisas em comum: nós dois dormíamos 2/3 do dia, comíamos muito e ficávamos bobos com o cheiro de carne.
Pépi tinha fascínio por pés, creio que para ele os pés eram mais um brinquedo. Ele se escondia debaixo da cortina e ficava ali, esperando alguém passar, e quando passava ele pulava e atacava seus pés. No começo levei tantos sustos…
Ele gostava de brincar na grama do quintal dos fundos (onde não havia cães). Lembro-me dele pulando na grama atrás de algum bichinho tão insignificante que eu mal podia vê-lo, e de que quando pegava sua presa vinha todo contente mostrar o trabalho bem feito, e da minha mãe, que não compartilhava sua alegria pois Pépi, em sua caçada, havia destruído a horta…
O ronronar do Pépi podia ser usado como sirene de bombeiro pois era muito, muito, e mais uma vez, muuuito alto. Eu o pegava no colo como se fosse um bebê, e quando tinha de levá-lo ao veterinário eu o colocava dentro de uma de minhas bolsas que lhe servia de rede… E ele ia tranqüilo. Bom, é certo que não voltava tão tranqüilo assim depois de quase arrancar os dedos da veterinária que tentara lhe dar uma vacina. De noite ele dormia comigo, dormia a noite inteira, e fazia comigo como eu fazia com a minha mãe: sempre quando eu ia dormir com minha mãe, para ter a garantia de que ela estava ali, eu encostava as costas ou o braço nela, e ele fazia o mesmo comigo. Eu era mãe.
O Dan (meu pai que não gostava de gatos) teve o coração amolecido. Brincava com o gato, e tinham uma brincadeira um tanto bruta mas que os dois adoravam: ele balançava a cabeça do gato, gritava “GAAAAAAAAAATO” e o Pépi ficava tontinho e se enroscava na mão do Dan… Quando eu viajei com a minha mãe, fiquei sabendo que eles até dormiram na mesma cama!
Ontem eu tive de sair para comprar os últimos materiais para a escola, pois minhas aulas recomeçam hoje, e voltando para casa fiquei sabendo que meus cachorros tinham pego o Pépi. Na hora em que me contaram fiquei sem reação, achei que estavam brincando, e então vi lágrimas escorrerem do rosto da minha mãe ao falar do estado dele: com as pernas e a coluna fraturadas, o pulmão perfurado, com probabilidade de hemorragia interna. Então caiu a ficha, Pépi estava mal, era verdade… Ele, sim, ele estava morrendo… Então minha mãe complementou que não queria mais os cães (que “herdamos dos antigos donos da nossa casa”) e que o “próximo gato seria acostumado desde pequeno com os cachorros…” Minhas próximas palavras me vieram como um raio no pensamento: “NÃO VOU QUERER OUTRO GATO!” “VOU MATAR AQUELE CACHORRO!!” “POR QUE EU NÃO ESTAVA LÁ?” Mas, no momento em que peguei fôlego para proferi-las, ao invés de palavras me vieram lágrimas que escorreram ligeiras pelo meu rosto, enquanto olhava pela janela do carro, que se dirigia para a clínica onde o Pépi estava.
Ao chegarmos na clínica, eu decidida a não chorar, fui até o Pépi. E o vi dentre quatro grades, deitado, com sangue nos curativos… Quando me viu ele ficou levemente ofegante e me olhava, com seus olhos claros como os meus, como que me contando o que havia ocorrido. Eu não conseguia falar com a veterinária que, na tentativa fracassada de me consolar, ficava contando os seus casos parecidos, que só pioravam a situação. Parece que sempre que ocorre uma tragédia o povo acha que se contar as suas vai ajudar… Mas a realidade dura e fria é que não ajuda em nada! Após a saída da veterinária, fiquei ali fazendo-lhe um carinho atrás da orelha do jeito que ele gosta, ele ofegava bastante, quase não se mexia… Mas aquela cena me torturava, me tortura até agora só de recordá-la. E chorei, chorei como a criança que sou, dando adeus… Chorei porque estava perdendo meu bichinho… E mais que isso: meu
filhote.
Meu primeiro sentimento foi de raiva, o segundo de rejeição a outro gato ou qualquer animal a que eu pudesse vir a me apegar. Depois veio a culpa por eu não estar ali na hora para socorrer meu filhote, e o consolo de que não era minha culpa. Tudo isso escorria de mim em lágrimas… Lágrimas cristalinas como os olhos do Pépi. Ainda não sei qual desses sentimentos ainda há ou não em mim. Ou qual é o próximo que virá.
Uma pessoa muito esperta me disse, após eu guinchar que não iria querer outro gato, que não devemos fechar nosso coração a cada decepção, que não posso deixar ele se endurecer só porque foi conquistado e magoado. Esse conselho é muito sábio, porém muito difícil de ser seguido. Quando perdemos um ente querido não vem alguém e diz “tudo bem querida, eu compro outro vô para você…” Então como podem fazer isso com meu filhote?
Naquela noite jantamos calados, alguns elogios sobre a comida quebravam o silêncio, mas sabíamos que estávamos sentindo a mesma coisa. Quando olhei para a cachorra que fez isso com ele, não olhei mais com carinho e sim, por mais que eu tentasse evitar, com raiva, com rancor. Sabia que não era certo. Sabia que era o instinto dela, mas sabia também que ela tinha feito por ciúmes. Naquele dia, ela não veio me pedir carinho, só ficou me olhando, parecia saber o que tinha feito, não só ao Pépi mas a mim.
Naquela noite dormi chorando e chorando acordei. Quero que ele melhore… Mas quero mais ainda que ele não sofra. Espero que ele não esteja sofrendo como eu estou. “Chorei e choro mas amanhã não vou chorar, pois amanhã é um novo dia e outra coisa virá”. Falo isso para mim mesma.
Não vou contar o final dessa história, para que cada um a termine como queira. Não está sendo uma história feliz nem tampouco uma história triste, está sendo uma história real, com alegrias e tristezas. A história ainda não acabou, ela está sendo escrita, não pelas minhas mãos mas sim pelas do destino, muito mais sábio, não sei se mais justo. O que quer que aconteça com o meu Pépi, eu sempre vou levá-lo bem perto de onde eu o carregava o dia todo, vou levá-lo no coração, esse meu filhote de quatro patas.






Comentários (10 comentários)
que lindo
Carol / February 2nd, 2009, 7:40 pm / #
Então…
eu não quis comentar antes pra não parecer insensível, porque eu não sei (ou não tenho) o que dizer sobre o gato.
Mas resolvi vir dar parabéns pelo texto, do qual eu gostei muito. O último parágrafo me fez pensar “uaau, pena que é uma história real, porque se fosse fictícia seria tão legal de ler quanto, mas menos triste”…
Ou seja: continuo sem saber direito o que dizer.
João Vitor / February 3rd, 2009, 9:58 pm / #
Disse bem.
rbp / February 4th, 2009, 9:28 am / #
Mazuca
Nunca imaginei que a menina do meu coração tivesse tal profundidade de sentimentos. Estou orgulhoso de você, de seu “conto”, de sua sensibilidade, de sua entrega total a esse amor pelo Pépi. Fiquei muito, muito emocionado. E chorei ao leo o seu relato.
Nada nem ninguém subsitituirá o seu Pépi pois ele está permanentemente emsuamemória e faz parte de sua história. Para sempre. Mass é bonito você admitir que haverá outras oportunidades de carinho,afeto, amor que marcarão também o seu coraçãoe se transformarão em lembranças inesquecíveis…eu só posso torcer para que nenhuma traga consigo a dor desta.
Com muito, muito carinho
Seu “nonno”
Paolo
estou chorando feito um bebê… outra vez… pode ?
Paolo / February 4th, 2009, 11:42 am / #
Eu e a Marina temos um acordo: sempre que ela escreve para o Das Haus, fazemos juntas uma correção do texto. Mas é uma mera correção ortográfica, não de estilo. O estilo é todo dela. E caramba, desde a primeira vez, fiquei impressionada. Eu conhecia algumas de suas poesias, mas redações e crônicas, não. Ela é boa nisso!
Escrever para o público tem sido um grande aprendizado para nós: ela aprende as regras dos “esses”, “zês” e “cedilhas”; e eu aprendo com seu estilo, que é bom, daqueles que prende e envolve o leitor na história.
O artigo do Pépi, todavia, não consegui. Passei a bola pra frente. Entendo o Paolo chorar feito um bebê, porque comigo foi igual. E não me arriscaria a ler de novo, agora. Mazuca, sinto muito pelo seu pequeno.
alickel / February 4th, 2009, 12:41 pm / #
Má,
Estou MUITO ORGULHOSA de você, sua forma de expressar seus sentimentos é envolvente, continue assim, sendo essa filha MARAVILHOSA que você é!
Já li o texto várias vezes e cada vez é um choro. Tá bom, isso não é muita novidade para sua mãe, não é? Toda apresentação da escola eu sou a primeira a abrir o berreiro, mas é a forma que encontro de expressar o quanto ORGULHOSA eu fico e principalmente o quanto TE AMO.
Beijo da sua mãe MAIS CORUJA desse MUNDO!
Mamãe CORUJA / February 4th, 2009, 1:42 pm / #
Mazuca,
Você é demais, viu?
Te amo!
Bjs,
Titia Karin
P.S.: Mais não posso dizer…não agora.
Karin / February 11th, 2009, 9:01 am / #
Noooossaaaa…. me emocionei mesmo… e corri escondida p/ chorar no banheiro pq estou no meu trabalho. Parabéns Marina, sua história é realmente linda… triste, com certeza, mas linda. Assim minha querida, é a vida, infelizmente… momentos felizes (e eternos) e momentos difícies… com essas experiências é que nos enriquecemos e nos aperfeiçoamos; com elas aprendemos a dar valor às pequenas coisas da vida. Com elas aprendemos a nos doar e a dar o melhor de nós a todos os que passam pelo nosso caminho.
Continue escrevendo, como bem disse a Aline, você é realmente boa nisso.
Beijos com carinho
Sandra (mãe do Yuri)
Sandra / February 11th, 2009, 9:44 am / #
Li o texto por indicação da sua tia Karin (somos amigas). Sou apaixonada por gatos! Parabéns pela simplicidade e clareza do texto, Marina!!! É contagiante!!! Qto às dores da alma, só o tempo (um dia de cada vez, viu?) é capaz de amenizá-las. O sofrimento (qq sofrimento) não pode nos endurecer, e sim, nos fazer ver outras possibilidades na vida. E vc tem muuuuito tempo p/ exercitar isso, pq o q interessa, mm, vc tem de sobra: sensibilidade.
Me emocionei (me vi) muito c/ suas palavras, impossível controlar as lágrimas…
Uma beijoca no seu coração!
Cláudia
Cláudia Carvalho / February 12th, 2009, 6:09 pm / #
Olá ! Sou K , amiga da sua tia Karin.
Como você já disse antes, saber de outras tragédias não ajuda muito mas
gostaria de lhe contar que um gato salvou a minha vida antes de perder a sua.
Eu estava com uma baita depressão e nunca havia gostado particularmente de
gatos. Eu dormia o dia todo por causa da dor de ficar acordada e dos remédios.
Uma hora acordei e achei o mais feio dos gatos do meu lado da cama: muito magro
e cego de um olho. Eu gritei e escouracei o pobrezinho.
Sempre que eu acordava ele estava lá. Chorando, pedi minha mãe que o tocasse
pra fora da casa. Ninguém entendia de onde havia vindo aquele bicho.
Ele insistiu e conseguiu me tirar da apatia .Passei a tomar menos medicamento
e ficava brincando com ele.Era feio na verdade mas também muito carinhoso.
Fiquei curada da depressão.Um dia o gato comeu veneno que alguém havia
colocado pra matar rato.Ou sei lá, talvez fosse pra matá-lo mesmo. Seu nome
era Pichu.Nunca, nunca mais me esqueci dele e do que fez por mim.
Hoje sou uma apaixonada por gatos e meus filhos idem. Uma pena que somos
todos alérgicos, então eles ficam na casa do meu pai. Tenho 5: Dinah,
Leo, Leozinho, Bento e Benício.
Um beijo e toda a minha solidariedade
Kathia / February 15th, 2009, 8:45 pm / #
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