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Registros da minha origem

Este post tem a intenção não só de trazer informações e novidades aos leitores, como também de deixar um registro importante de algumas pesquisas e descobertas. É apenas um rascunho, mas daqueles que não se pode nem pensar em jogar fora.

Desde pequena fui acostumada a dizer que era descendente de alemão. Meus pais, talvez por não se importarem com o detalhe da origem, nunca explicaram mais a fundo as minhas raízes. Sabia que minha mãe era brasileira, filha de austríacos, e que meu pai era iugoslavo, como sempre me orgulhava dizer. De resto, eram muitos detalhes confusos e informações desencontradas.

O tempo foi passando, cresci, ganhei juízo e tenho pesquisado mais sobre essas raízes germânicas. Hoje chego a conclusão de que de alemão mesmo não tenho nada. Bem, dizer que Áustria e Croácia e qualquer outro país naquele miolo não tem nada de alemão é um grande exagero, senão mentira. A começar pela língua, tudo está concentrado numa cultura semelhante e de origens iguais. Mas o fato é que não sou descendente direta de alemão e “mais ou menos” filha de iugoslavo, como explicarei adiante.

Minha mãe nasceu no Brasil, na pequena cidade de Treze Tílias (Dreizehnlinden), em Santa Catarina. Seu pai é austríaco de Salzburg e sua mãe da região de Tirol.

Meu pai é croata. Quando ele nasceu, em 1943, a cidade Kapetanovo era parte da Iugoslávia, mas hoje está na Croácia. Meus avós não são alemães, ao contrário do que eu sempre havia dito: o opa (palavra em alemão que significa avô) nasceu na mesma cidade do meu pai, Kapetanovo, e a oma (avó) nasceu em Pakrac, Croácia.

Clique nos mapas e imagens para visualizar melhor no site de origem

Mapa Croácia

A linha vermelha delimita a Croácia, a sul está a Bósnia, a nordeste a Hungria, a norte e Eslovênia e a Áustria – Mapa: Google maps.

Kapetanovo

À esquerda está Kapetanovo Polje, e à direita Pakrac – Mapa: Google maps.

Pois vejam, então, sou descente de austríaco e croata e em casa fala-se oma e opa, come-se apfelstrudel e se canta Ein prost com canecão de cerveja na mão. Montei uma simples árvore genealógica com três gerações – em verde estão as partes austríacas, em rosa as croatas e em branco as brasileiras:

Árvore Genealógica

A história do meu pai sempre foi muito confusa. Na minha certidão de nascimento ele é Iugoslavo, algumas vezes se diz apátrida, mas pouco eu sabia da sua história. Foi recentemente, por meio do meu tio, que descobrimos que ele tinha nascido nesta cidade, Kapetanovo. Meu pai é o terceiro filho do casal. Com apenas 1 ano, foi vítima da diáspora de Kapetanovo quando, junto ao resto da cidade, a família deixou suas terras e foi para Linz, na Áustria, numa carroça de cavalo com a pequena mudança. Viveram nas proximidades de Linz por cerca de 9 anos, quando de trem foram para Genova, na Itália, e de lá pegaram o navio para o Brasil. Aqui, viveram em Entre Rios, colônia germânica próxima de Guarapuava, no Paraná.

Mapa Trajeto

Da direita para a esquerda: Kapetanovo-Croácia, Linz-Áustria e Genova-Itália – Mapa: Google maps.

Foi em Entre Rios que o opa, Hans Johann Lickel, faleceu e está enterrado. Anos depois, a família veio para São Paulo. A oma, com 94 anos, está com saúde fraca, já não tem mais memória recente, mas ainda resiste e vai às festas, encontra a família e sempre dá um abraço gostoso em quem quer que se apresente. É uma das mulheres mais fortes que já conheci. Sofreu de tudo o que se pode imaginar, desde fugir da guerra com filhos pequenos sem saber o que daria de comer amanhã, até ver sua mãe ser morta na guerra na sua própria frente. Ao contrário do que se poderia imaginar, ela não viveu com rancor, mas sim com muita doçura e amor.

Pesquisando sobre a cidade do meu pai, encontrei o site de uma canadense pHD em sociologia, Tonya Katherine Davidson, sobre a Diáspora de Kapetanovo:

Oma e Opa

no quadrado vermelho estão meus avós e os pontos azuis são outros membros da família Lickel – Imagem de: Tonya Katherine Davidson

Na página, tem esta foto de um casamento em 1941 e em outro link tem a mesma foto numerada com a lista dos nomes das pessoas. São 120 croatas e eu encontrei vários “Lickel” (meu sobrenome paterno). O que significa, sem dúvida, que são pessoas da minha família. Tive ainda mais certeza disso quando encontrei o nome do opa, Hans Johann Lickel e o da oma, Mrs. (Schlitt) Lickel. A socióloga, provavelmente, não tinha a informação do nome completo da minha avó e colocou apenas como sendo a senhora Lickel. O nome dela mesmo é Magdalena Lickel e Schlitt é o sobrenome de solteira. Fui verificar na foto e não há dúvidas de que é minha avó:

Opa e Oma

opa em azul e oma em vermelho – Imagem: Tonya Katherine Davidson

Oma

“Lickel Oma” em Janeiro de 2007, no nosso casamento.

Foi uma descoberta muito interessante. Agora, vou tentar manter contato com a socióloga para trocar informações e dar continuidade a essa pesquisa.

Outros links sobre Kapetanovo:

Comentários (20 comentários)

Ontem à noite escrevi um e-mail para a canadense, segue abaixo:
Olá Tonya, meu nome é Aline Lickel e eu sou do Brasil. Estou escrevendo porque encontrei a sua “homeland virtual” quando estava procurando informações sobre a cidade natal do meu pai, Kapetanovo.
Eu vi meu avô e minha avó naquela fotografia do casamento. O opa é Hans Johann Lickel (#105) e a oma é o #104, Magdalena (Schlitt) Lickel. Se eles estavam naquele casamento, acho que eram amigos dos seus avós.
Hans Lickel faleceu há muito tempo no sul do Brasil, mas minha avó está viva com 94 anos.
Então, eu faço parte da segunda geração da diáspora de Kapetanovo, porque meu pai, Heinrich Helmut Lickel, deixou a cidade quando tinha um ano.
Seu projeto é muito importante para mim e para minha família. Você tem mais informações ou fotos que gostaria de compartilhar conosco?
Obrigada! Abraços, Aline.
Eis que ela já nos respondeu :)
Olá Aline, que ótima surpresa receber um e-mail seu!
Stefan e Margaret Torau na foto de casamento eram meus avós, então acho nossos avós eram amigos!
Meu avô faleceu em Maio, ele era um fantástico contator de histórias, e eu recordo de histórias dos Lickels! Minha avó faleceu em 1995. Eu sou a neta, então minha mãe tem fotos, mas eu vou ver se posso scannear e mandar algumas. Que tipo de informação vocês estão procurando?<br /><br /><br />
Minha oma e meu opa eram parte de um grande comunidade de Kapetanovo que se estabeleceu no sudoeste de Ontario, Canadá (adendo meu: Ontario é a província ou estado cuja capital é Toronto). Poucos kapetanovenses estão vivos ainda.
O outro casal da foto de casamento, Konrad e Katie Felder (meus tio-avós) estão vivos. O tio Konrad tem 89 anos e a tio Katie é um pouco mais nova.
Meus avós vieram para o Canadá em 1949, depois de viver na Áustria por 5 anos.
Obrigada pelo seu e-mail! Tenho certeza de que manteremos mais contato.
Abraços, Tonya Davidson.

alickel / July 30th, 2007, 10:44 am / #

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