Retratos e histórias da família Lickel
Ontem aconteceu o churrasco anual de família, que meu tio tem organizado em sua casa. Desde que a oma faleceu, em Outubro do ano passado, estas pequenas reuniões têm trazido excelentes doses de saudades e recordações.
Recentemente, este meu tio, Johann Lickel (irmão de meu pai), também muito curioso e sempre em busca de informações sobre nossa história, chegou em meu blog. Contente por ver que as pesquisas que ele outrora fizera estavam organizadas, publicadas e atraindo pessoas que vivenciaram histórias semelhantes, ele passou a nos incentivar ainda mais. Ontem, além de poder conversar mais uma vez com todos os irmãos de meu pai, o tio Johann nos presenteou com um poster do brasão de nosso sobrenome; ganhei também um livro sobre Entre Rios, a colônia no Paraná fundada pelos iugoslavos de Kapetanovo e Hrastovac e pude, ainda, ficar com algumas fotos para digitalizar, que já estão organizadas no Flickr.
Não vou demorar-me a recontar toda a história, mas eles saíram da Iugoslávia durante a perseguição do ditador comunista Tito, refugiaram-se na Áustria e vieram para o Brasil em 1952. Tenho dois artigos publicados que contam com mais detalhes esta saga: Registros da minha origem e Registros da família Lickel.
Enquanto conversava ontem com uma de minhas tias, Magdalena Lickel, líamos o livro e víamos as fotos da fuga, comecei a imaginar o que teria sido atravessar a Iugoslávia em direção a Áustria, com todos os pertences e alimentos nas carroças, fugindo de bombas e tiros durante seis semanas, deixando no caminho amigos e familiares mortos pelos ataques e tentando proteger os que sobreviviam. Meu pai tinha apenas um ano e só se alimentava de leite materno. Minha avó, por escassez de comida, quase já não tinha mais leite. Ainda assim, a família chegou completa na Áustria.
A Áustria estava destruída pela guerra. Os refugiados se abrigavam em acampamentos e aglomerados de gente. Meus avós tiveram sorte e logo conseguiram trabalho em uma fazenda. Assim que surgiu o programa de migração para a América, eles vieram para o Brasil, com a esperança de reconquistar terras próprias, novamente.
Minha tia era pequena, tinha apenas 5 anos, mas se recorda do trajeto de trem do porto de Santos ao Paraná, quando viram, pela primeira vez, bananas. “Teve uma mulher negra que passou por nós e deu um tapinha carinhoso em meu rosto. Eu nunca tinha visto pessoas negras e perguntei a minha mãe se meu rosto ficara marcado de preto”, conta minha tia.
Abaixo, algumas fotos que acabo de digitalizar. As outras, estão no Flickr.
Minha avó, Magdalena Lickel, trabalhando na lavoura, plantação de batatas, na Iugoslávia. Por volta de 1934-1937.
Casa onde meu pai e seus irmãos, Johann e Zigfried (Fritz) nasceram, em Kapetanovo, Iugoslávia.
Família Lickel no Brasil, em Entre Rios: Magdalena Lickel (oma), Johann Lickel (opa), Johann Lickel, Jacob Lickel (irmão do opa), Margaret Lickel, Zigfried Lickel, Anna Lickel (pai do opa) e Heinrich Lickel (meu pai). Ainda não havia nascido Helen Lickel, a filha mais nova da família.
Papai é o único sem calçados! Este é o legado do filho homem caçula, que herda as coisas usadas dos irmãos mais velhos. Gosto da careta e da pose de travessura dele nesta foto :-)








Projeto CyberShark

Comentários (7 comentários)
Acho muito louco imaginar um mundo tão real quanto o nosso hoje, mas totalmente diferente em alguns aspectos. O tempo é uma coisa muito louca (e eu acho q estou na crise da meia idade).
Belo post, parabéns. Bjs.
daniduc / September 8th, 2008, 12:01 pm / #
Eu sempre achei essa coisa de guerra algo muito distante, outra realidade. É interessante como isso é trazido pra perto, quando o meu sogro veio pra cá fugindo da guerra, sob tiros e bombas…
rbp / September 8th, 2008, 2:57 pm / #
Meu Deus! Este mundo definitivamente é pequeno. Cheguei ao seu blog através do Rainhas do Lar, sobre um comentário da Faby e, pásmem, vejo aqui que vc tb é descedente de iugoslavos (pai) e a família morou em Entre Rios-PR. Também sou descendente de iugoslavos (minha mãe era) que chegou neste mesmo navio no Brasil, saindo de Gênova e ela + família foram morar na Colônia Vitória em Entre Rios. Desculpe-me mas não me recordo do sobrenome de sua família, pois ainda me lembro de alguns deles dos comentários de minha mãe. Infelizmente ela faleceu já faz 16 anos, mas ainda tenho parentes vivendo na Colônia…. :-) Em tempo, nós falávamos Ota e não Opa, talvez devido ao dialeto (Dounauschwaben - ou “schwobisch” como é dito). Ah, a minha família é a Karly, como disse parte de mãe que casou-se aqui com brasileiro. Puxa fiquei feliz em ler seu artigo. :-)
Cristina / September 12th, 2008, 10:41 am / #
Dani, obrigada pelo comentário. Para mim, ainda acho que este mundo parece muito irreal. De vez em quando, tenho umas sensações de que ele está mais próximo. Mas é raro, de modo geral, é como se fosse um conto, uma história, um romance, sabe? Me assusta pensar que foram vivências reais, porque foram duras.
Cristina, que feliz coincidência! Eu também não me recordo do seu sobrenome. Entretanto, é muito possível que meu pai e meus tios reconheçam a sua família. As colônias são pequenas, todos se conhecem :-) Interessante, eu não conhecia esta variante de “Ota”. O pouco do alemão que sei é muito confuso, pois tem influências do iugoslavo, por parte de pai, e do austríaco (tanto de Tirol quanto de Salzburg), por parte de mãe. Muitas palavras e expressões não batem! Adorei o comentário!
alickel / September 12th, 2008, 12:33 pm / #
Mein Name ist Hans Zart und meine Mutter, Eva , war die Schwester von deiner
Grossmutter. Ich känne viele Leute von Deine Bilder. Dein Onkel Johann ist in
meinem Alter und wir haben vielmals zusamme gespield in Harastovac.
Hans Zart / November 30th, 2008, 3:53 pm / #
Mein Name ist Hans Zart und meine Mutter, Eva , war die Schwester von deiner
Grossmutter. Ich känne viele Leute von Deine Bilder. Dein Onkel Johann ist in
meinem Alter und wir haben vielmals zusamme gespield in Harastovac.
Hans
Hans Zart / November 30th, 2008, 3:54 pm / #
Aline we are trying to contact you about your family.
Ron Berg-Iverson e-mail bergiverson@shaw.ca
Father: Michael Kehl, born to Michael Kehl and Anna Maria Jung in Gerenyes, Baranya, Hungary on 29 September 1853.
Died in Hrastovac,Slavonia,Croatia 8 Sept.1908
Mother: Katharina ( Kata ) Melcher -date and place of birth unknown.
Died in Hrastovac around 1915
Note: Catharina Melcher chr.26 Nov.1858 Egyhazaskozar,Baranya,Hungary
Mother Elisabetha Melcher
Is this your g-grandmother? ANA KEHEL?
4. Anna Maria Kehl - born 1 May 1887 at # 114 in Hrastovac.
Married Johann ( Hans ) Likel in Kapitanovopolje. Had 15 children. Went to Brazil.
Lickel cousins in Sao Paulo
Ron Berg-Iverson / December 1st, 2008, 7:49 pm / #
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